A Oração (2) - É impossível caminhar sem ela

Inicio com uma nota pessoal. Aos vinte e quatro anos, quando encontrei o Pathwork e o assumi como um caminho de vida ― não como religião, pois não o é, mas como uma sabedoria espiritual e prática de autoconhecimento ―, meu hábito de oração naturalmente se integrou ao trabalho pessoal que começava. Mudanças na dinâmica desta prática aconteceram de forma muito sutil, decorrentes do próprio amadurecimento ou da tomada de consciência de algum conceito trazido pelo Pathwork sobre como abordar o ato da oração. Mas, essencialmente, a oração é o que é, neste caminho ou em qualquer outro. E em todos eles, é sempre recomendada, e seu valor para a vida espiritual é reconhecido.

No último artigo mencionamos que a oração nos conecta imediatamente ao mundo espiritual. “A porta só abre pelo lado de cá”, muito se diz. Isto significa que o auxílio do Reino de Deus necessita do nosso chamado, da nossa abertura voluntária a receber ajuda e orientação espiritual.

Todavia, além deste importante aspecto de “religação” que a oração proporciona, há uma outra propriedade dela que é pouco conhecida da maioria das pessoas. E o que seria isso? A resposta é que a oração, na visão do Pathwork, atua muito eficazmente em nossa dimensão mental, ordenando e reorientando os nossos pensamentos.

A oração como reorganização do pensamento

A maioria de nós já sabe do poder que o conteúdo do campo emocional tem na criação de nossa vida. O que não é tão óbvio é o papel de nossos pensamentos nesse mesmo processo criativo, bem como o fato de a oração ser um recurso com relevante ação positiva nesta dimensão mais consciente e racional de nosso ser.

Pathwork e oração
A oração traz clareza para o nosso campo mental e sua prática desenvolve a concentração

Devemos aos nossos padrões de pensamento a mesma atenção e cuidado que precisamos dispensar às imagens e sentimentos. Estes podem ser mais facilmente acessados por meio da meditação. A oração, por sua vez, acessa mais diretamente às nossas formas-pensamento. Em oração, podemos gradativamente reorientá-las, bem como pedir auxílio para esse processo de limpeza do campo mental.

O Guia afirma que para uma nova criação positiva acontecer ela precisa nascer primeiro no pensamento. Um conceito mais realista ou uma perspectiva nova para a vida e suas possibilidades precisa, antes, surgir e ser cuidadosamente cultivada em nossa mente consciente. Ou seja, um padrão de pensamento renovado precisa ser estabelecido. A oração tem atuação importante neste processo. Por essa razão, quem ainda não desenvolveu o hábito da oração deveria focar em sua construção, começando de forma gradual para, mais adiante, consolidá-lo definitivamente em seu caminho pessoal.

Oração e concentração

Vamos abordar agora um outro aspecto benéfico da prática regular da oração em nosso campo mental: a concentração. A oração nos liga ao nosso mundo interior e, desta forma, naturalmente nos induz ao desenvolvimento desta importante habilidade que, inclusive, é fundamental para outra prática: a meditação.

A capacidade de concentração é um requisito para a meditação. Muitas pessoas têm real dificuldade para meditar, pois lhes falta a capacidade de se concentrar — de colocar o foco, sem dispersão, num lugar interno específico. Por essa razão, a oração é também, em certa medida, um exercício preparatório para a meditação. Logo, percebe-se como a oração pode se tornar o fio condutor do caminho espiritual ao realizar uma contínua higiene de nosso campo mental, fortalecer gradativamente nossa capacidade de concentração e, posteriormente, viabilizar um estado interno que sustente a prática meditativa.

Para que a prática da oração proporcione o fortalecimento da capacidade de concentração, é preciso que ela seja feita de forma regular e frequente. Sendo um dos tripés do trabalho pessoal ― os outros dois: revisão diária e meditação ― , o Guia sugere que haja uma prática principal diária de oração que seja um pouco mais extensa e preferencialmente feita no mesmo local e horário e, eventualmente, outras curtas orações de poucos minutos, logo ao iniciar ou ao encerrar o dia, no caso dessas já não serem a oração principal. No que diz respeito à sugestão de se fazer a oração mais extensa, tanto quanto possível, no mesmo local e horário, o Guia pede para que isto não seja percebido como uma forma de rigidez, mas apenas como uma conduta que facilita a conexão com o mundo espiritual e que, por isso, traz vantagens significativas ao processo.

Quanto ao período da oração principal do dia, o aluno deve buscar a medida de tempo que lhe parece razoável e praticável. Desde o início deve-se buscar a própria autonomia e autorresponsabilidade e isso inclui tomar decisões que se adaptam ao seu perfil e possibilidades do momento.

No caso desse momento de oração mais extenso a que o Guia se refere, o mais importante é que haja um mínimo de dinamismo e vivacidade em sua prática. O próprio Guia alerta que, se a prática porventura estagnar na mesmice — o que ocorre quando nos debruçamos de forma repetitiva e rígida sobre os mesmos assuntos —, o melhor é descontinuá-la temporariamente, substituindo este investimento de energia por uma oração mais curta ou se voltar para outros aspectos do caminho que possam ser naquele momento mais bem favorecidos pela disponibilização de um acréscimo de atenção. Oportunamente, com o movimento natural da vida, poderemos retomar com mais foco e energia a prática da oração de uma forma mais extensa e aprofundada.

Ressalvado o cuidado de que se deve evitar que a prática se cristalize numa rotina de pouco movimento interno, é importante ao pathworker estar consciente de que a oração é requisito essencial do caminho espiritual. Verdadeiramente, não há como prescindir dela. Não há meio de o caminho de autoconhecimento e autotransformação se desdobrar de forma plena sem a prática regular da oração. Para além de trazer clareza para o que se passa em nossa consciência e em nossa vida interior e manifesta, e de também fortalecer nosso poder de concentração que viabiliza a prática meditativa, o hábito da oração nos sintoniza com a Graça de Deus, que é impessoal e não faz distinção quanto àqueles sobre os quais estenderá a sua luz, bastando que em primeiro lugar sejamos nós a buscá-la. Talvez seja até por este último aspecto que o Guia afirma que a oração tem o condão de nos conferir uma energia que emana humildade. Se considerarmos o quanto a verdadeira humildade é um ativo espiritual árduo de ser conquistado e o quanto a sua emanação afeta positivamente o inconsciente das outras pessoas, favorecendo a qualidade do relacionamento interpessoal, daremos a oração a relevância que ela merece em nosso caminho.


Muita paz!

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